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CASTRAÇÃO – ENTRE MITOS E VERDADES O QUE É MELHOR PARA O SEU CÃO

CASTRAÇÃO – Entre mitos e verdades o que é melhor para o seu cão

Quando eu estava na faculdade falava-se muito sobre a castração e a importância desse procedimento para machos e fêmeas. Tanto para a prevenção de doenças quanto para o  controle populacional. Por algum tempo  eu acreditei que essa medida era essencial e obrigatória para todos os animais. 

Mas com o passar dos anos  comecei a me aprofundar cada vez mais no assunto. Com o  estudo em  endocrinologia e os inúmeros  atendimentos ao longo dos anos comecei a perceber que a castração para machos e fêmeas é um procedimento cirúrgico dependente de INDICAÇÃO e INFORMAÇÃO DETALHADA ao tutor. Hoje, na minha opinião, não é algo que deve ser definido como obrigatório para todos os animais e não deve ser considerado pré requisito para definir se o animal será saudável durante toda a vida.

Acredito que a informação é o caminho mais adequado para definir condutas médicas.  E esse texto foi escrito com o objetivo de compartilhar e trocar ideias sobre o assunto.  Para que mais estudos sejam realizados e para que novos estímulos sejam dados aos alunos que estão iniciando a caminhada e atuação em medicina veterinária.

Na minha opinião o indivíduo deve ser considerado como único em sua raça, espécie e estilo de vida. A posse responsável é outro ponto importante e essencial na definição da conduta médica. Infelizmente no Brasil ainda temos muitos animais semi-domiciliados, falta a educação sobre o que é ter um animal e todos os cuidados e responsabilidades exigidas. Mas também temos a parcela da população que não cria seus animais semi-domiciliados. Que entende e conhece sobre todas as responsabilidades que envolvem os cuidados com os animais.  Que  busca condutas individuais e não quer mais receber a informação sobre  a castração de forma superficial e apenas com a exigência de que precisa ser feito.

Portanto, compartilharei com vocês agora as minhas observações sobre esse assunto. Informações que repasso também para os tutores que vem até a clínica. Para que juntos possamos definir a melhor conduta para aquele animal.

Devemos compreender que os hormônios sexuais não apresentam funções apenas reprodutivas. Esse é o primeiro passo para se ter o entendimento sobre a importância deles no indivíduo.

Os hormônios são como “instrumentistas de uma orquestra” para se ter a “música suave e em  equilíbrio” é necessário a presença de todos ali. Cada um desempenhando sua função e complementando o som do outro.

Os hormônios sexuais além da função de gerar libido, estímulo reprodutivo, ovulação, produção de espermatozoides tem a capacidade de prevenir ou reduzir a progressão de doenças degenerativas do sistema nervoso central,  função lipolítica (quebra de gordura no corpo), aumento da massa muscular, fechamento de placas ósseas de crescimento, controle emocional e comportamental  e muitas outras funções.


Entende-se por castração precoce  em machos e fêmeas ( pré – púbere)  a retirada dos testículos e o útero e ovários em fase precoce de vida. Antes do cio nas cadelas e antes da maturidade sexual nos machos. Normalmente antes dos 6 meses de vida em ambos.  Essa conduta tem sido estimulada há alguns anos por diversos veterinários.  E foi por um período também reforçada por mim por acreditar que a redução dos hormônios sexuais nas cadelas nessa fase poderia trazer mais efeitos positivos do que negativos no corpo. E por saber da existência de  alguns estudos  que descrevem a importância de se castrar cadelas antes do primeiro cio como conduta para reduzir  PONTUALMENTE a chance do surgimento de  tumor de mama.

Mas hoje também sabemos   (de acordo com artigos científicos realizados com cadelas de grande porte) que  a castração precoce predispõe a problemas graves articulares no futuro, maior chance de outros tipos de neoplasias durante a vida ( Osteossarcoma em rottweilers)  e possibilidade de incontinência urinária em cadelas

Na fase pré púbere temos também o encerramento de todo o ciclo vacinal inicial e adaptação do filhote no novo ambiente. Nesse período temos uma exigência maior do corpo para responder a todos os desafios. Não considero o mais correto optar por um procedimento anestésico e cirúrgico (que pode causar redução da imunidade do paciente) nessa fase tão inicial de vida. Não considero ideal optar por essa conduta para TODOS os animais.

A redução dos hormônios sexuais (pela castração) reduz também o metabolismo e pode alterar o estímulo do centro de saciedade.  E se o tutor não modificar a nutrição e o nível de atividade física do animal (após a cirurgia) aumentam as chances de obesidade no cão e no gato.

A escolha da castração para animais sem problemas no trato reprodutivo deve -se levar em consideração também a raça. Existem raças mais predispostas a ter obesidade como beagle, pug, labrador e  buldogue inglês. Por esse motivo deve-se ter muito cuidado na indicação precoce da castração nesses pacientes. 

Portanto, é preciso ter humildade e entender que a medicina não pode ficar estagnada. Ela precisa evoluir, nós precisamos evoluir. Estudar cada vez mais, questionar e compreender que há muito para aprender. Existem muitas interações e funções hormonais que não conhecemos. Na dúvida,  respeito e acredito mais no que é FISIOLÓGICO. As glândulas estão ali por diversos motivos.  Pensar apenas nos indivíduos como “manada” não me permite exercer a medicina integrativa como eu acredito.

 A endocrinologia veterinária está ganhando espaço e mais estudos agora. Na medicina humana temos muito mais informações sobre a homeostase hormonal. Sobre os  efeitos que os inúmeros hormônios causam no corpo.

A conduta de castração precoce, de acordo com artigos científicos e minhas observações clínicas, não é considerada a mais indicada quando pensamos em manutenção do equilíbrio hormonal e qualidade de vida.  Na minha opinião,  quanto mais prolongado for o tempo de exposição aos hormônios sexuais maior chance de se manter a  saúde. E quando associamos essa  conduta a uma ótima nutrição e manejo  podemos ter muito mais longevidade  e qualidade de vida.


Como metodologia para controle populacional de cães errantes a castração ainda é considerada a melhor forma de se assegurar a não reprodução daquele animal. Mas outras técnicas como a vasectomia e a castração química em machos precisam ser mais estudadas e executadas em faculdades. Essas técnicas reduziriam apenas a capacidade reprodutiva mas não impedem que os hormônios sexuais continuem  exercendo seu papel  positivo e fisiológico no organismo.

A castração se torna essencial e de extrema importância em casos de infecções de útero, tumores ovarianos, tumores testiculares, criptorquidismo e para outras alterações reprodutivas onde apenas a castração permitirá a cura das patologias apresentadas.

O que esclarecemos aqui é sobre a importância dos estudos, do compartilhamento de informações recentes e da definição de conduta levando em consideração as características do indivíduo.

Seguem abaixo algumas referências para quem se interessar.

Gabriela Rodrigues Monteiro
Médica Veterinária e proprietária da Vet Healing.

1)Age at gonadectomy and risk of overweight/ obesity and orthopedic injury in a cohort of Golden Retrievers. Simpson, M. et al. PLOS ONE (Julho, 2019)

2) Effect of gonadectomy on subsequent development of age-related cognitive impairment in dogs. Hart, B.L. JAVMA (Julho, 2001)

3) Evaluation of the risk and age of the onset of cancer and behavioral disorders in gonadectomized Vizslas. Zink, M.C et al. JAVMA (Fevereiro, 2014)

4)  Long-Term Health Effects of Neutering Dogs: Comparison of Labrador Retrievers with Golden Retrievers. Hart, B.L. et al. PLOS ONE (Julho, 2014)

 5) Neutering of German Shepherd Dogs: associated joint disorders, cancers and urinary incontinence. Hart, B.L. et al. Veterinary Medicine and Science (2016, 2)

6) Desexing Dogs: A Review of the Current Literature. Urfer, S.R.* e Kaeberlein, M. Animals (2019, 9)

 7) Exploring mechanisms of sex differences in longevity: lifetime ovary exposure and exceptional longevity in dogs. Waters, D.J. et al. Aging Cell (2009)

8) The effect of neutering on risk of mamary tumours on dogs – a systematic review. Beauvais, W. Cardwell, J.M and Brodbelt, D.C. Journal of Small Animal Practice, British Small Animal Veterinary Association (Junho, 2012)

 9) Gonadectomy effects on the risk of immune disorders in the dog: a retrospective study. Sundburg, C.R. et al. BMC Veterinary Research (2016)

10) Adverse events diagnosed within three days of vaccine administration in dogs. Moore, G.E. et al. JAVMA (Outubro, 2005)

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