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Cães, vegetarianismo e sustentabilidade

TUDO OU NADA A VER?

Artur Vasconcelos, médico veterinário

É relativamente comum notar um olhar de surpresa nos clientes quando finalmente proponho que ofereçam basicamente carne para seus cães. Muita gente tem uma visão humanizada da alimentação bioapropriada, e imagina um prato cheio de vegetais, de diversos tipos, compondo a maior parte do prato. Isso é reforçado pelas imagens associadas à prática encontradas na internet, sempre “multicoloridas”, e pelo próprio trabalho de colegas que tem um entendimento diferente da meu sobre o assunto. Inegável também é o desconforto de comprar 10 ou 20kg de carne para um mês de refeições para um único cão. Especialmente para os tutores que já tomam a decisão de reduzir o consumo de produtos de origem animal, ou mesmo optam pelo vegetarianismo. O que muita gente descobre, e geralmente concorda, é que a prática de alimentar cães de forma natural se apoia em três pilares: evolutivo, fisiológico e ético-moral. E isso acaba por nos direcionar a esse tipo de dieta, sem nos dar outras alternativas.

É inegável que cães se originaram de lobos muito recentemente (10 mil anos é um instante numa escala evolutiva!). E apesar da discussão sobre uma possível adaptação para um consumo maior de material vegetal, geneticamente falando, poucos discordam que basicamente  ambos são da mesma espécie, dividindo mais de 99% do seu DNA. E isso nos diz muito, especialmente na ausência de informações confiáveis geradas pela recém-nascida ciência da nutrição. A dieta dos lobos é composta por mais de 95% por presas, com percentual variável e sazonal de pouco material fibroso, com reduzido valor nutritivo. Ao contrário do que se divulga, lobos dificilmente comem o conteúdo digestivo das suas presas. E não se enganem: cães selvagens como os dingos, mantêm inalterados os hábitos carnívoros de seus antepassados. Não duvidem também que seu peludo no sofá não faria o mesmo se dependesse da própria sorte.

Se a base evolutiva é inegável, a fisiologia dos cães também é muito clara. A lista é extensa: mandíbula poderosa sem movimento mastigatório lateral, dentes perfuradores, ausência de amilase salivar, estômago ácido e distensível, intestino curto com incapacidade fermentadora, e necessidade de ingestão de vários nutrientes apenas encontrados já pré-formados em animais. Essas características são encontrados em animais que sobrevivem comendo majoritariamente carne. E se não bastasse, a própria preferência dos cães por carne nos diz muito quando seguimos uma abordagem intuitiva.

Porém o mesmo questionamento que motiva muita gente optar por uma alimentação sem produtos animais, também incomoda por aqui: é sensato abater certos animais para alimentar outros? A simbiose ou co-evolução do cão com o homem pode ter ocorrido de forma acidental, mas a sua permanência ao nosso lado nos dias de hoje, é uma opção. Se nos tornamos vegetarianos, não é porque é necessariamente o caminho mais saudável, mas simplesmente, porque podemos. E os cães, fisiologicamente falando, podem? Ou melhor, é moralmente aceitável alimentá-los contra a sua natureza por uma decisão nossa, e não deles? Não acredito em respostas únicas ou consensuais, mas cada vez mais acredito que a negação do consumo de produtos animais pode ser discordante, se não incompatível, com a companhia de um carnívoro.

Por fim, o entendimento da redução do consumo de animais como melhor opção para a sustentabilidade do planeta está bem longe de ser unanimidade. Crescente número de evidências científicas nos mostra que a forma como produzimos a carne é mais importante que o quanto consumimos dela. Em outras palavras, não discordo que criações convencionais de animais, que os mantem confinados e alimentados com grãos de monocultura, representam um enorme passivo ambiental e social para o planeta. Mas o pastejo regenerativo e o manejo responsável de populações de animais através da caça e pesca mostram que é possível reverter o ciclo de destruição no qual nos encontramos, produzindo carne a partir de recursos naturais renováveis e, ao mesmo tempo, melhorando o equilíbrio de áreas intensamente degradadas, recuperando a qualidade do solo e das águas. E a alimentação bioapropriada acaba por se encaixar como uma luva nesse cenário, nos dando a possibilidade de buscar a alimentação dos nossos cães em sistemas produtivos menores e cíclicos, muito diferentes da agropecuária industrial, origem dos ingredientes de qualquer ração. Escolher carnes de produtores engajados na proteção ambiental passa a ser não só uma ótima opção para a saúde dos peludos, mas para a do planeta também.

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